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O Preparo e Emprego das frações AC no Exército Nacional da Colômbia e seus ensinamentos para o Exército Brasileiro

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Introdução

As capacidades de Defesa Anticarro têm importância fundamental no combate moderno. A evolução da blindagem e o aumento do alcance do armamento dos Carros de Combate (CC) trazem consigo a constante necessidade de atualização dos meios de defesa anticarro utilizados pela Força Terrestre. Dessa forma, a existência de armamentos e frações anticarro configuram-se como fator altamente dissuasório, que restringem a liberdade de manobra da força adversa e limitam a iniciativa das tropas blindadas e mecanizadas, haja vista a grande efetividade desses armamentos, especialmente os mísseis.

A capacidade de engajamento de alvos do Canhão Sem Recuo (CSR) Carl Gustaf, que mobilia a nossa Força, já não consegue penetrar as blindagens mais modernas e não possui alcance útil que possibilite seu uso com segurança aos atiradores. Assim, o Exército Brasileiro (EB) busca reestruturar-se, com foco na ampliação da sua Capacidade Operacional. Nesse viés, contempla-se a recuperação da capacidade anticarro de suas Organizações Militares.

Para tanto, o Plano Estratégico do Exército (PEEx) 2020-2023 prevê recuperar essa capacidade, no contexto do Programa Estratégico do Exército denominado Obtenção da Capacidade Operacional Plena (Prg EE OCOP).

Já existem sistemas de mísseis em processo de aquisição pelo EB. A Comissão do Exército Brasileiro em Washington (CEBW) informou que a proposta da empresa israelense Rafael Advanced Defense Systems Ltd. foi a escolhida na cotação internacional para a aquisição de mísseis anticarro (anti-tank guided missile – ATGM). A proposta de aquisição para fornecimento de unidades do míssil Spike LR2 inclui lançadores, simuladores para treinamento da guarnição, suporte logístico integrado e treinamento pela empresa fabricante. “Spike”, em Inglês, significa espinho, a estrutura pontiaguda de algumas plantas capaz de ferir e perfurar.

Paralelamente à aquisição de meios de defesa anticarro, a Força busca aprimorar seus conhecimentos técnicos e doutrinários. Em 2021, o Centro de Instrução de Blindados (CI Bld) enviou um militar à República da Colômbia para a realização do Curso de Operação e Emprego Tático do Sistema Anticarro Spike. Tal ação proporcionou o intercâmbio de informações e capacitou militar brasileiro em especialidades relacionadas ao míssil anticarro e ao emprego tático das frações dotadas desse material.

O curso do Sistema Anticarro Spike LR

Ministrado pela Escola de Cavalaria do Exército Nacional da Colômbia, tem o objetivo de treinar os militares das Arma de Cavalaria e de Infantaria na operação e uso tático do Sistema Anticarro Spike LR, além de desenvolver liderança militar dos comandantes de frações anticarro. Com duração de 10 semanas, foi realizado no forte militar de Buenavista, no departamento de La Guajira, localizado na região norte daquele país.

Durante o aprendizado, são abordados cinco módulos de ensino: treinamento físico, tático, técnico, institucional e de pesquisa. A fim de avaliar o rendimento, cada um deles recebe peso diferente para a composição da nota final. Observe:

Tabela 1: Módulos de ensino do curso de sistemas AC do Exército Nacional da Colômbia
Fonte: o autor

 

Módulo de treinamento físico

A prática do treinamento físico constante durante o curso é essencial para a realização das instruções, principalmente na fase final de campanha do curso, quando são realizados marchas e deslocamentos em terreno árido com grande carga de peso a ser transportado a pé.

Módulo Institucional

Abrange os ensinamentos sobre as legislações vigentes de conhecimento necessário aos militares daquele país. São abordados artigos da constituição colombiana, regulamentos internos àquele exército e outras leis que respaldam o uso da força pelos militares em operações.

Módulo técnico

Seu objetivo é capacitar os alunos a operar o sistema Spike LR em todos os modos de operação, tanto em período diurno quanto noturno. Os alunos iniciam esse módulo identificando todos os componentes do sistema e aprendendo para que servem. São realizadas provas práticas a fim de testar o conhecimento.

Também abrange-se a técnica de tiro, em que são utilizados diversos tipos de simuladores, cujas grandes vantagens são a economia de meios e a segurança na instrução. Devido ao alto custo de cada míssil, o treinamento somente com munição real se tornaria inviável.

O sistema Spike possui quatro tipos de simuladores de apoio a instrução: mecânico, de tiro interno, de tiro externo e tático de fração. Veja:

1) Simulador mecânico: é utilizado para instruções de montagem e desmontagem do sistema como um todo, além de possuir todos os componentes mecânicos externos e peso idêntico ao sistema para treinamento psicomotor dos operadores.

2) Simulador de tiro interno: simulacro integrado a um computador; possibilita o manejo em ambiente de realidade virtual, possibilitando o engajamento de alvos. Durante os exercícios de técnica de tiro, aprende-se a empregar o armamento em sua plenitude − com alvos parados ou em movimento; em ambiente diurno ou noturno; em alvos desenfiados, fora da linha de visada do atirador.

Figura 1: treinamento de tiro com simulador externo
FFonte: o autor

 

3) Simulador de tiro externo: utiliza um lançador de emprego real e um míssil adaptado com buscador semelhante ao míssil real, porém sem explosivos. Todos os procedimentos são realizados de forma idêntica ao emprego real do sistema até o momento do disparo.

4) Simulador Tático de Fração: é um sistema de treinamento tático avançado, projetado para treinar os níveis pelotão, esquadrão, comandantes e atiradores, em uma variedade de cenários de combate. O STT é baseado em até quatro (4) IDTs, estação de comando e estação de instrutor, todos conectados juntos em uma sala, o que permite o treinamento simultâneo de equipes.

Módulo tático

Inclui a instrução no terreno, integrando os conhecimentos teóricos sobre operações e outros adquiridos nos módulos anteriores. Capacita em táticas e procedimentos relativos às frações anticarro. Entre as atividades realizadas estão planejamentos, operações ofensivas e defensivas, marchas e infiltrações táticas.

Figura 2: estação completa de STT
Fonte: https://forcaaerea.com.br/letonia-instala-novo-treinador-para-misseis-spike-lr2-e-sr/ Acesso em: 17 Jul 23

 

Os Pelotões AC no exército Colombiano

O Exército Nacional da Colômbia emprega suas frações AC principalmente nas regiões fronteiriças. O principal núcleo de preparo e ensino de frações AC se encontra no norte do país, sede do 1º Batalhão de Armas Combinadas Médio.

Ali, existe uma subunidade anticarro Spike, com a dotação de 3 pelotões AC a 4 peças desse míssil cada, embarcadas em viaturas “Humvee” de origem norte-americana. São realizados turnos de capacitação para estes pelotões anualmente, a fim de manter as frações em um alto nível de adestramento e capazes de responder rapidamente a uma ameaça blindada externa.

Ressalta-se que esse é um fator de dissuasão contra ameaças externas blindadas, pois apresenta alcance maior que o armamento dos blindados utilizados na atualidade e tem capacidade de visão noturna por dispositivo termal acoplado, tornando-o capaz de engajar alvos em ambiente diurno e noturno.

Figura 3: viatura adaptada para o emprego do míssil Spike
Fonte:https://www.hoydiariodelmagdalena.com.co/archivos/501924/mindefensa-presento-fuerza-de-tarea-de-armas-combinadas/ Acesso em: 17 Jul 23

 

A Defesa Anticarro por parte do Exército Brasileiro atualmente

A última aquisição de sistemas de mísseis anticarro realizada pelo EB data da década de 1990, com a compra de mísseis do modelo ERIX e MILAN, de origem francesa, que já não se encontram mais disponíveis no mercado.

Atualmente, o EB possui os canhões sem recuo (CSR) Carl Gustaf e AT4 como defesa às ameaças blindadas. Importantes na defesa anticarro, os CSR proporcionam defesa aproximada e de médio alcance, de até 700 metros. Essas armas não possuem optrônicos voltados para o combate noturno.

O míssil Spike LR2

O Spike LR2 é a mais recente variante da família de armas guiadas anticarro desenvolvidas pela empresa israelense Rafael Advanced Defense Systems. Esse míssil tem, nessa versão, sistema de guiamento de 5ª geração e alcance que pode chegar até 5,5 km, segundo o fabricante.

Possui, ainda, capacidade de emprego noturno devido aos sistemas de visão termal acoplados tanto no buscador do míssil quanto no sistema de lançamento. Sua capacidade de destruição de blindados está em sua alta expectativa de impacto e na cabeça de guerra de dupla carga oca, além de possuir trajetória elevada para impactar na parte superior dos alvos (top attack). Essas características proporcionam-lhe letalidade até contra os blindados mais modernos da atualidade.

Figura 4: Míssil Spike impactando alvo por trajetória alta durante testes da empresa fabricante
Fonte: Rafael Advanced Defense Systems Ltd.

 

Alimentado por Inteligência Artificial (IA), seu buscador apresenta recursos inteligentes de rastreamento, garantindo o bloqueio do alvo sob condições extremas contra vários alvos. Ele também elimina a intervenção do atirador enquanto engaja seus alvos. A trajetória do míssil elevado permite, ainda, que um ângulo de ataque acentuado engaje os alvos da linha de visão (line of sight - LOS) e além da linha de visão (beyond line of sight - BLOS).

Essa versão também possui sistema de navegação inercial e modo de disparo em coordenadas previamente reconhecidas, incorporada para apoiar a alocação de alvos de terceiros. A capacidade do sistema de counter-active protection system (CAPS) garante o engajamento de alvos em ângulos de impacto mais altos de até 70°. É, ainda, capaz de abortar a missão em pleno voo. Após seu lançamento, o operador pode carregar imediatamente outro míssil no lançador, para o próximo engajamento.

Um sistema completo desse míssil (tripé, lançador e uma unidade da munição) pesa aproximadamente 27 kg, tendo, cada míssil, cerca de 13 Kg. Isso dificulta o deslocamento de uma guarnição desembarcada a grandes distâncias, viabilizando a infiltração a pé da fração AC com seu armamento de dotação, sempre considerando a situação tática.

Conclusão

Tal como já ocorreu com os projetos Leopard e Guarani, a aquisição de um completo sistema de defesa AC − contemplando todo o escopo necessário de simulação, munição, logística e capacitação − traria elevação significativa à qualidade do adestramento da tropa. Com a previsão de aquisição do sistema anticarro Spike pelo EB, abre-se grande possibilidade de modernização do preparo e emprego da Força Terrestre, seja pela disponibilidade de um amplo apoio ao ensino por meio dos seus sistemas de simulação seja pelo alto grau de letalidade ante as ameaças blindadas.

Por fim, pode-se afirmar que o poder dissuasório diante das ameaças do entorno regional será aumentado com essa aquisição. Nesse sentido, um míssil moderno dará o suporte necessário aos objetivos da Política de Defesa Nacional, pois reúne as características ofensivas e defensivas que garantem equilíbrio frente a ameaças regionais.

 
 
AÇO, BOINA PRETA, BRASIL!
 
 
 

LUCAS PITUCO SOARES – Cap Cav
Instrutor do CI Bld
DANIEL BERNARDI ANNES – Cel
Comandante do CI Bld

 

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